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OS SUICIDAS

 

Aquela sessão das sextas-feiras, que tantas vezes tenho citado, já ia em meio quando aproximaram de mim um espírito que se suicidara por enforcamento. Seu estado de sofrimento era terrível. Fazia um desesperado esforço para respirar mas a garganta estava completamente fechada, não passava ar. Sentia como se estivesse morrendo continuamente, mas sem morrer. Sua angústia era indizível.

Conforme esse espírito ia-se incorporando eu também ia deixando de respirar. Por mais que fizesse não entrava ar nos pulmões. Tentei levar as mãos ao pescoço para retirar a corda que ali sentia, apertando-o, mas não a encontrei. Os presentes à mesa fizeram uma prece pelo sofredor, mas sem qualquer resultado aparente.

Comecei a me preocupar com o fato de não estar respirando e cheguei mesmo a pensar que poderia desencarnar ali, em pleno trabalho mediúnico, por efeito daquela incorporação, mas logo me aquietei, confiando nos benfeitores que sabia estarem atentos. Quando a falta de ar já estava se tornando insuportável percebi que estavam retirando o sofredor e logo pude respirar a longos e profundos haustos. Enquanto isso, o Professor relatava o que lhe estava chegando pela vidência e audiência, narrando algo sobre a vida daquele espírito e informando que ele se enforcara numa prisão.

Assim que me senti refeita, para minha surpresa, trouxeram novamente o mesmo espírito que ficou incorporado durante o tempo em que eu podia permanecer sem ar. Isto se repetiu várias vezes, sendo que nas últimas ele já conseguia respirar, embora com muita dificuldade. Na semana seguinte foi trazido novamente para incorporação e, já bem melhor, pôde ser levado em definitivo.

 

 

OS ABORTADOS

 

Inúmeras vezes recebi espíritos cujos corpos físicos em formação tinham sido abortados. Muitos, cheios de ódio e desejos de vingança, acompanhavam as mulheres que os haviam expulsado, provocando-lhes problemas orgânicos e/ou psicológicos. Outros, apenas magoados ou tristes, continuavam na expectativa de conseguirem reencarnar. Alguns se apresentavam com a mesma forma da última existência, outros não.

Lembro-me de um, cuja extrema dor pulsava num montinho de tecidos estraçalhados que não conseguia recompor. Incorporá-lo, era difícil e sacrificial, por causa de seu grande sofrimento e desespero, sem falar na sua desestruturação perispiritual. Conforme ia se aproximando eu passava a me sentir aquele montinho de tecidos sanguinolentos, sem conseguir falar por não ter boca; sem poder chorar, por não ter voz, sem poder me movimentar, por não ter um corpo. Era só pensamento e emoção, vibrando num ódio terrível à mulher que o abortara. Nem esperança conseguia ter.

Foram necessários vários retornos dele em sessões subseqüentes até que pôde, finalmente, recuperar a forma anterior. Quanto a perdoar sua ex-futura mãe... só foi possível levá-lo a prometer que não tentaria vingar-se dela, o que já era bastante. O perdão, certamente viria com o tempo.

 

- o -

 

Então volto àquela questão da importância de uma incorporação, mesmo que seja meio anímica, porque, a meu ver, essa interação entre o corpo espiritual do sofredor e o sistema energético do médium, facilita a efetivação do seu reequilíbrio. Igualmente é importante o componente relativo às emanações do corpo físico do doutrinador, a sua palavra, a corrente magnética formada pelo grupo e as vibrações de amor, paz e harmonia emitidas pelas equipes carnal e espiritual. Não sei como isto acontece tecnicamente, mas sei que algo de muito importante ocorre com o espírito sofredor durante uma incorporação num trabalho espírita bem desenvolvido.

Seria então o caso de se perguntar sobre os milhões de espíritos que não tem oportunidade de serem atendidos em trabalhos mediúnicos.

Essa mesma pergunta foi feita a Divaldo Franco e ele respondeu dizendo que no mundo espiritual há inúmeros recursos para ajudar espíritos necessitados, inclusive com a participação de médiuns encarnados em desdobramento do sono, mas que o trabalho mediúnico nos centros espíritas facilita sobremodo a tarefa dos benfeitores, porque há casos em que é importante ao sofredor ingressar na condição física, ligar-se a um corpo carnal para poder refazer-se.

 

 

"Extraído do livro “Mergulho no Invisível - Saara Nousiainen”.