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OS PERIGOS DA MEDIUNIDADE

 

 César percebia em sua mente e no corpo os sintomas da mediunidade. Por vezes, em momentos de lazer e total despreocupação, sem nada que o justificasse, sentia-se repentinamente irritado, com sensações desagradáveis e estranhos impulsos de agressividade contra tudo e todos.

Como era um homem pacato e educado, afastava-se buscando o isolamento do quarto, do jardim ou qualquer outro “esconderijo”, com receio de dar vazão aos fortes impulsos que sentia. De outras vezes via-se de repente, adoentado: dores na cabeça, no abdômen, no tórax, ou nos membros, estômago embrulhado, tontura e um esquisito zumbido nos ouvidos. Parecia que ia desfalecer. Além disso, ouvia como se fossem dentro da cabeça, em seu próprio fluxo mental, gemidos, choro e lamentos angustiosos, sentindo uma quase que irrefreável necessidade de gemer, integrando-se ao ambiente angustiante em que se percebia mergulhado.

Sabia que tudo isto significava que era médium, e precisava urgentemente buscar o equilíbrio no local adequado.

Não longe de sua casa havia um centro espírita e nosso amigo passou a freqüentá-lo em reuniões de estudo doutrinário e nas sessões de desenvolvimento mediúnico

No início era tudo maravilhoso e sentia-se feliz. Aos poucos a mediunidade ia aflorando de maneira equilibrada, desaparecendo aqueles sintomas tão incômodos. Já não mais sentia as sensações desagradáveis, agressivas e angustiantes de antes.

Voltou a trabalhar “com todo o gás”, obtendo significativa promoção no emprego.

Para seu desagrado, entretanto, começou a sentir-se aprisionado nas grades da responsabilidade mediúnica. Quantas vezes tinha que abrir mão de programas muito atrativos porque era dia de sessão! Também precisava abster-se das antigas noitadas onde a bebida e o sexo disputavam a primazia, porque lhe diziam que o médium precisa ter certos cuidados com a própria vivência.

Certa noite, véspera de trabalho mediúnico, não resistiu à tentação e deixou-se levar pelos amigos a uma daquelas noitadas regadas a álcool, drogas e sexo. Depois do que considerava uma longa prisão, sentia-se livre, tão livre que até aceitou a droga oferecida por alguém.

Essas noitadas foram-se seguindo umas depois de outras e acabou abandonando o trabalho mediúnico. Os companheiros do Centro tentaram ajudá-lo, mas foram repelidos com demonstrações de ódio.

Alguns meses mais tarde vamos encontrar César numa casa de saúde para doentes mentais. Os pais viram-se obrigados a interná-lo após a última crise, mais violenta que as anteriores. Incorporado com um espírito inferior, quebrara tudo o que se podia quebrar dentro da casa, esmurrara os pais e irmãos, quase matando um dos menores, e saindo por fim, correndo rua a fora, até ser jogado ao chão por um automóvel que, por sorte não o machucara muito.

Como será a caminhada futura de César? É óbvio que isto ira depender exclusivamente dele mesmo. Se retornar às responsabilidades de sua missão, tudo voltará à normalidade, mas, caso contrário... só Deus sabe...

 

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Arnaldo viveu situação semelhante à de César, e foi num terreiro de umbanda que deu vazão à sua mediunidade. A diferença está em que não desistiu abandonando a missão, mas fez coisa muito pior. O terreiro a que pertencia, trabalhava com as duas mãos, isto é, tanto fazia como desmanchava, cobrando caro por qualquer trabalho. Ali funcionava a próspera indústria da magia.

Pobre diabo que era, sem eira nem beira, Arnaldo viu-se logo, alçado a posição de destaque, pelas excelentes faculdades mediúnicas de que era portador. Sentia-se como um pequeno Deus, cercado pelos consulentes e freqüentadores comuns do terreiro.

Cresceu em vaidade e auto-suficiência, faturando alto, e em poucos anos montou seu próprio terreiro, transferindo para lá, a maioria dos fiéis.

Desfez-se por completo de todo escrúpulo, aceitando todo e qualquer trabalho por mais horrendo e asqueroso, desde que bem remunerado.

Ao sentir o câncer danificando seu organismo, apelou para todos os recursos humanos sem resultado e, ao buscar socorro no plano espiritual percebeu, apavorado, que à sua volta só encontrava exus, quiumbas e outros que gargalhavam satanicamente, envolvendo-o em suas garras, cada vez mais e mais...

Suplicou auxílio a Deus, mas em vão. Encontrava-se tão enleado, preso e amarrado aos companheiros espirituais que escolhera, que suas preces se viam sufocadas e anuladas dentro da negra nuvem vibratória que o envolvia por completo. Desencarnou, em meio a uivos e risos ferozes, entregando seu corpo espiritual à sanha de antigos inimigos que fizera em passadas encarnações, inimigos esses que deveria ter atendido em trabalhos mediúnicos em ambientes fraternos, visando ao perdão e à pacificação.

 

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Não se podia dizer que Raimundo fosse rico. Era, na realidade pobre, mas jamais lhe faltara o necessário para a manutenção da família. Possuía um pequeno negócio de peças para automóveis, mas dedicava a maior parte do tempo para atender às responsabilidades da missão mediúnica que assumira há mais de trinta anos. Liderando pequeno grupo de médiuns, realizava os mais belos trabalhos de desobsessão, atendendo casos mais graves em domicílio.

Quantas vezes via-se acordado em plena madrugada, para orientar pessoas desesperadas, e tudo isto, sem jamais aceitar um centavo sequer das pessoas às quais ajudava.

Quando seus irmãos tocavam no assunto, argumentando que assim ele estava se desgastando inutilmente para ajudar a quem não merecia, respondia tranqüilamente; se eu viver até cem anos de idade realizando a tarefa mediúnica, nem assim poderei pagar um décimo que seja do muito que devo a Deus e aos espíritos que me assistem, sem falar na alegria de estar sendo útil a meu próximo.

 

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Estes três casos extraídos dos arquivos da vida, onde outros semelhantes repontam aos milhares, dão-nos uma pequena amostra de quais são os perigos reais da mediunidade, pois esta, com Deus, ou seja, desinteresse e caridade pura, conduzem o médium pelos caminhos sublimes do equilíbrio, da paz interior e da consciência do dever cumprido, assegurando-lhe um melhor futuro espiritual após a desencarnação, ao passo que a mediunidade empregada para o mal, ou aplicada em interesses escusos, levam seu portador, fatalmente, a situações dolorosas após a morte do corpo físico.

Já, a missão mediúnica não aceita, não cumprida, traz o endereço do desequilíbrio, com más conseqüências agora e depois.

 

(Saara Nousiainen)