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MORCEGO/PROSTITUTA

 

“Estávamos num trabalho de desobsessão no qual ocorriam várias incorporações ao mesmo tempo e os doutrinadores realizavam sua tarefa em pé, ao lado dos médiuns, falando baixo para não perturbarem os demais. Era uma tremenda confusão muito bem organizada e nunca houve problemas por causa desse sistema. As duas dirigentes responsáveis pelos trabalhos ficavam atentas ajudando aqui e ali, conforme a necessidade.

A certa altura observei que não havia médiuns incorporados e percebi um “estado de alerta” da parte do mundo espiritual. Isto acontecia quando eram trazidos espíritos de muito baixa condição, trabalhos esses que requeriam a participação de todo o grupo. E quando digo baixa condição refiro-me ao estado moral dessas criaturas, ao seu campo magnético de baixíssima freqüência e, muitas vezes, irradiando poderosas energias hipnotizantes. Os chefões do mal e muitos dos seus asseclas geralmente são espíritos de brilhante inteligência e amplos conhecimentos, não só da natureza humana, mas também no que diz respeito à ciência e à tecnologia avançada.

O ambiente mudou rapidamente e me vi envolvida numa penumbra suja, pegajosa, arrepiante, cheia de ameaças cuja procedência desconhecia. Do fundo dessa penumbra surgiu um enorme morcego, que talvez tivesse uns dois metros da ponta de uma asa à outra. Busquei instintivamente a presença do amigo espiritual que sempre me assistia e pude percebê-lo, próximo a mim, dando-me tranqüilidade. Relaxei e coloquei-me à disposição para receber fosse o que fosse, pois sabia que podia confiar plenamente nos espíritos responsáveis pelo trabalho, assim como no grupo terreno.

Sempre tive pavor a morcegos e continuo tendo. Eles são, para mim, a representação do que há de mais baixo, asqueroso e terrível, em termos de vida e ética, pelo fato de se nutrirem de sangue. Sei que a maioria alimenta-se de frutas, mas o estigma permanece.

Pois aquele ser horrível foi-se aproximando, envolvendo-me em sua ambiência, enquanto eu procurava dinamizar, o quanto podia, sentimentos de amor por ele. Entendo que naqueles momentos a serenidade, a aceitação e os bons sentimentos que conseguia desenvolver deviam-se, em sua maior parte, à presença de benfeitores de grande elevação que me transmitiam esses valores. Se dependesse só de mim...

Mas aquela proximidade, mais que asquerosa, horrível, me foi envolvendo num clima infernal, difícil de suportar. A dirigente aproximou-se dizendo que tivesse confiança. Tratei de me desligar, ficar apática, não pensar e não sentir, apenas entregar-me e logo estava ali, como se fosse duas ao mesmo tempo: uma esforçando-se por manter-se neutra, passiva, apática e a outra, verdadeiro monstro sedento de sangue, soltando uma espécie de silvo, como se fosse um grito de guerra.

Percebi que as duas dirigentes haviam se colocado atrás de mim e silenciosamente ministravam passes na entidade incorporada. Já conhecia essa tática. Quando o espírito era desses superlativamente baixos, em vez de falarem elas faziam primeiro essa retirada de energias pesadas do seu campo magnético. Isto o levava a certo estado de perturbação, como se lhe puxassem o tapete.

O silêncio da sala só era cortado por aquela espécie de silvos emitidos pelo manifestante. O grupo, acostumado a esse tipo de trabalhos, ficava apenas vibrando amor direcionado ao coração do visitante.

Eu já me sentia como se fosse a própria criatura, com os mesmos sentimentos, pensamentos, desejos e idéias. Mas percebia-me também, na minha realidade, como alguém muito distante, que de alguma forma me controlava. Sabia que eu não era ela. Que apenas “estava” ela, momentaneamente, porque isto era necessário ao serviço do amor.

Não vou descrever o que aquela criatura sentia, como se posicionava ali, com relação às pessoas presentes, para não criar imagens por demais pesadas na mente do leitor.

Depois de muito tempo daquele trabalho silencioso percebi que retiravam aquele espírito, com muito cuidado para não prejudicarem meu equilíbrio físico e psíquico. Em seguida, como acontecia amiúde, fui levada, em desdobramento, para algum lugar de refrigério, a fim de recuperar as energias e o equilíbrio.

Chega a ser comovente o cuidado que os benfeitores têm para com seus médiuns, no sentido de nada sofrerem por conta do trabalho realizado.

Na semana seguinte o mesmo espírito voltou e, depois de ministrar-lhe longo passe, a dirigente começou a falar-lhe, ordenando serena, mas firmemente, que retomasse a sua forma humana.

Confesso que me surpreendi um pouco, porque, em meu entendimento “aquilo” jamais fora gente. Mas, com a continuidade do trabalho e aquelas ordens sempre repetidas, aos poucos comecei a perceber-lhe alguns lampejos humanos. Aquele espírito-morcego em rápidos instantes mostrava-se como sendo uma mulher, mas em seguida voltava a seu estado habitual, até que, finalmente, depois de muito trabalho acabou assumindo sua verdadeira condição.

Dava para perceber que era, ou fora, uma prostituta. Aos poucos, a muito custo porque não queria falar, acabou dizendo o que acontecera com ela. Não o fez como alguém arrependido ou envergonhado, bem ao contrário, apresentava-se arrogante, grosseira e vulgar.

Informou que havia morto fulano (não me lembro do nome) por ciúme. Fulano era o seu homem e ela não aceitaria traição. Disse também não entender como acabara na ante-sala do inferno, em meio a terríveis demônios que ameaçaram enviá-la às chamas eternas por causa do seu crime*. Não sabia como havia desencarnado, mas estava consciente desse fato.

Contou que aqueles seres diabólicos lhe ofereceram uma opção: trabalhar para eles. Só assim escaparia de ser assada nas chamas infernais pela eternidade a fora. Não tendo escolha, aceitou que eles a transformassem num morcego que era usado em trabalhos de magia negra. Eles a levavam para junto da vítima e ela sugava-lhe o sangue.

É claro que o que ela sugava eram as suas energias vitais, ao mesmo tempo em que lhe transmitia suas pesadíssimas cargas magnéticas.

A dirigente ofereceu-lhe internamento numa instituição espiritual a fim de fugir a seus chefes, que não aceitariam perder seus valiosos serviços.

Aquela foi a primeira etapa de um trabalho para ajudar uma pessoa vítima de magia negra, feita a mando de alguém que queria levá-la a suicidar-se. Essa pessoa havia procurado o Centro espírita, pedindo ajuda e esta lhe chegava pelas mãos dos incansáveis servidores que, no invisível, trabalham sob o influxo do amor.

 

* Sabemos que demônios e inferno como aqueles das concepções religiosas não existem, mas como os espíritos trevosos são verdadeiros mestres em encenações, é natural que se utilizem de recursos que têm à mão para criarem os cenários com que conseguem assustar ou convencer espíritos culpados a obedecê-los, porque é a consciência pesada que fragiliza alguém diante dos maus.”

 

"Extraído do livro “Mergulho no Invisível - Saara Nousiainen”.