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INCORPORAÇÃO SOB PRESSÃO

 

 

Num trabalho mediúnico interessante de que participei numa viagem, não me lembro qual a cidade, o dirigente doutrinava procurando falar em rima, como se fosse um repentista. Até ai, nada de mais, mas a maneira como conduzia os trabalhos era terrível. Ele comandava tudo:

“Agora é fulano quem vai incorporar. Pode se aproximar de fulano, irmãozinho. Vamos fulano, receba esse espírito que está aí a seu lado”.

Esse é apenas o teor do que ele dizia, porque isso era dito formando rimas, embora meio quebradas.

E ai de fulano, se não incorporasse!

No início da reunião, ao ver que haviam faltado alguns médiuns ele me pedira para sentar à mesa. Não tive como negar e ali estava, esperando a minha vez com bastante apreensão. Não sentia qualquer presença espiritual e, ao ouvir seu comando para que a irmã visitante incorporasse (essa irmã era eu), juro que tive vontade de fazer de conta que estava recebendo um espírito. Mas isto foi só um rápido lampejo e, ali fiquei, sofrendo aquelas ordens implacáveis, apesar de serem proferidas numa forma tão prosaica. O lado bom é que aquilo estraçalhava qualquer vaidade latente, talvez fosse dignidade ferida, pois estava sendo vista e tida pelos companheiros como uma médium “fajuta”. Até me parecia ouvir esse termo tão chulo, circulando nos pensamentos dos presentes. Mas, graças a Deus consegui manter-me firme na opção pela verdade.

O doutrinador parecia um show-man, comandando o espetáculo. Suas maneiras eram teatrais e via-se que ele agia sentindo-se a estrela da ocasião. Parecia mesmo muito instigado com o fato de ter ali, comigo, a oportunidade de exibir-se. Agüentei, no entanto, firme, as suas ordens para incorporar, até que, cansado, determinou que o médium seguinte na lista dos incorporadores “receberia” aquele inexistente espírito. Claro que ele o “recebeu”.

Esse episódio me fez ver de perto como é que se fabricam médiuns anímicos e mistificadores.

Imagine um médium concentrado, com todos os seus potenciais mediúnicos ativados, o que significa estar em estado de alta sensibilidade, a sentir essa pressão na forma de ordens para incorporar um espírito. Realmente é preciso ter muita firmeza e mesmo serenidade para não mistificar ou mergulhar no animismo, deixando seu próprio inconsciente manifestar-se, na ausência de um espírito comunicante. Para um mero visitante, como foi o meu caso, até que seria mais fácil, mas para um trabalhador da Casa, quase impossível.

Acredito mesmo que naquele trabalho os benfeitores providenciavam as incorporações de acordo com as determinações do dirigente para minimizar o problema, mas, mesmo assim, é preciso ver que o médium nem sempre tem afinidade energética ou fluídica com todo espírito, além de nem sempre estar em condições favoráveis para o intercâmbio.

 

"Trecho extraído do livro “Mergulho no Invisível - Saara Nousiainen”.