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DIREÇÃO INADEQUADA

 

 Certa feita, a convite de um amigo, fui visitar um centro espírita muito simpático, que ficava no meio de uma favela. Era um grupo de pessoas de boa vontade, muito dedicadas, que davam àquela gente assistência material e também espiritual, na medida do possível.

O amigo, que era o Presidente da instituição, convidou-me a participar do trabalho mediúnico, dirigido por uma senhora de poucas luzes, tanto que fazia grande confusão entre espíritos como Santo Agostinho, Erasto, S. Luiz e outros da Codificação, com os trabalhadores espirituais da Casa. Mas era uma pessoa de boa vontade, embora mandona, deixando transparecer boa dose de prepotência.

Naquela época eu achava que só a boa vontade era suficiente para dar segurança ao medianeiro e aceitei o convite.

Havia vários médiuns de incorporação, cujas comunicações me pareceram bastante seguras. Já na parte final dos trabalhos percebi a aproximação de um espírito em terrível estado de sofrimento. Era um suicida. Sua simples presença dava uma vontade quase irresistível de sair correndo. Era uma vibração angustiante, cheia de hipnotizante horror.

Mas aquietei-me ao perceber a presença da entidade que sempre me assistia nos trabalhos mediúnicos e pedi a Deus tranqüilidade e amor suficientes para suportar aquela presença e poder ajudar.

Foi uma incorporação sofrida e uma doutrinação difícil. A doutrinadora não percebia o que se passava com aquele espírito que não conseguia falar por causa de estragos feitos nas cordas vocais pelo ato suicida. Ela insistia em que ele falasse, repetindo: “Fale, meu irmão!... A médium tem que ajudar... a médium é desenvolvida e sabe que tem que ajudar”.

A essa altura, sob aquela ordem, tentei dizer o que se passava mas a voz não saía.

Um benfeitor espiritual aproximou-se e passou a conversar amorosamente com o irmão sofredor, falando-lhe da misericórdia divina, para a qual ele deveria apelar e convidando-o à oração. Ao mesmo tempo outro ministrava-lhe um passe, retirando de seu campo magnético parte da pesada carga energética, ou fluídica, que trazia.

Procurei dominar os gemidos que ele emitia e ficar o mais quieta possível para que a doutrinadora pensasse que o espírito já tinha ido embora. Só assim ela não perturbaria o trabalho dos benfeitores. Foi o que aconteceu. Aos poucos o irmãozinho foi se acalmando, aliviando-se bastante de seus terríveis padecimentos, até que pôde ser levado pelos trabalhadores da casa.

Como geralmente acontecia depois de uma incorporação difícil ou “pesada”, fui levada, em desdobramento, a um lugar muito aprazível onde começaram a fazer uma espécie de limpeza e energização em meu corpo espiritual.

Eu me sentia péssima, principalmente por causa da desarmonia gerada com a insistência da doutrinadora em fazer o espírito falar. Aquilo havia “mexido” comigo, ou talvez tenha sido o desequilíbrio vibratório que se formara no ambiente. Estava acostumada a trabalhar numa equipe bem harmonizada, onde todos vibravam em uníssono, onde não se sentia desconfianças da parte dos companheiros. Assim, era possível entregar-se inteiramente, com toda confiança, às mãos dos responsáveis pelo trabalho, encarnados e desencarnados. Mas ali, com a falta de preparo e mesmo de sensibilidade da doutrinadora, e com as vibrações antagônicas dos companheiros de mesa, a coisa se complicara bastante.

Mal começava a sentir algum alívio percebi, mesmo distante, que a doutrinadora estava encerrando a reunião.

Percebi que retornávamos rapidamente, mas eu não conseguia voltar ao corpo, por mais que tentasse. Seria preciso algum tempo para que os benfeitores pudessem fazer o seu trabalho, proporcionando condições seguras para meu reingresso.

De repente, um pensamento assustou-me: e se eles não perceberem minha situação e forem embora, deixando-me trancada dentro do Centro?

Observei que todos se levantavam e preparavam-se para sair. Eu estava apavorada e também por isso minhas tentativas de voltar ao corpo não davam qualquer resultado.

Felizmente alguém percebeu e chamou a atenção da doutrinadora. Esta, bastante mal-humorada, passou a me recriminar, dizendo que eu precisava ter mais disciplina e não permitir incorporação fora de hora. Ela achava que eu estava incorporada.

Engoli humildemente qualquer idéia de revolta pela falta de fraternidade e mesmo de tato da parte daquela senhora. Tentei me acalmar, procurando entender-lhe as razões, mesmo porque a orientação espiritual é pela disciplina nos horários de início e encerramento das sessões.

Ela segurou minha cabeça entre as mãos, falando energicamente com o suposto espírito, ordenando que fosse embora e aguardasse a reunião seguinte, quando poderia ser atendido. Como se não bastasse, deu-me meia dúzia de tapas na testa, que repercutiram dentro da minha cabeça como violentas explosões a se refletirem em todo o organismo.

Foi assim, com toda essa brutalidade que retornei ao corpo.

Meu Deus!!! Que sensação terrível! Eu não conseguia respirar e sentia como se todas as minhas células estivessem dispersas, flutuando no espaço. Um imenso desespero apossou-se de mim, ao perceber que não estava sendo capaz de juntá-las. Sentia uma terrível angústia e acreditei que estava desencarnando.

Foi aí que um companheiro pediu licença e veio me dar um passe.

Aos poucos fui conseguindo me recompor e finalmente, respirar, aspirando o ar quase com desespero. O companheiro do passe reclamou a falta de caridade para comigo e a doutrinadora objetou dizendo que a disciplina estava acima de tudo. Não podia permitir atraso de nenhum minuto no encerramento da reunião.

Com dificuldade cheguei até o carro e permaneci ali longos minutos fazendo exercícios respiratórios e de relaxamento até me sentir em condições de dirigir, de volta para casa. 

 

"Trecho extraído do livro “Mergulho no Invisível - Saara Nousiainen”.