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CULTURA DO MELINDRE

 

Inúmeras têm sido as comunicações procedentes do mundo espiritual que falam sobre a necessidade de vencer barreiras intelectuais para vivenciar a comunicação interdimensional de forma mais plena. Muitos espíritos ilustres reclamam dizendo que sentem como se tivessem morrido duas vezes: a primeira, pela desencarnação, e a segunda, quando se aproximam de médiuns visando comunicar-se e estes se recusam a recebê-los, por medo do que os companheiros possam dizer.

Diante disso, podemos observar algumas situações que precisam ser repensadas:

1 – A cultura do melindre nos meios espíritas gerou situações em que o médium se nega a receber um espírito mais elevado, para não acabar sendo “fritado” pelos companheiros do grupo, quando deveria ser fiel ao mandato que lhe confiaram.

2 – Os grupos mediúnicos deveriam trabalhar intensamente para erradicar os melindres. Além de prejudiciais aos próprios trabalhos, abrigam em seu bojo o orgulho e a vaidade.

3 – Enquanto alguns médiuns se sentiriam inflar de vaidade por “receber” espíritos ilustres, outros adotam a cultura da indignidade que vige nos meios espíritas: “Quem sou eu para receber tal espírito?”, “Imagine eu psicografando com espíritos como fulano ou sicrano”...

Será que o melindre, a vaidade ou a cultura da indignidade poderão servir aos propósitos evolutivos da espiritualidade? Não seria mais coerente os médiuns e os grupos mediúnicos se esforçarem mais pelo próprio crescimento interior, a fim de se apresentarem como instrumentos adequados a comunicações com espíritos de mais elevada estirpe? Certamente é o caso de esses grupos começarem a desenvolver mais ações e de forma mais intensa, visando melhorar o nível espiritual dos seus membros para que os comunicantes possam encontrar instrumentos à altura.

Um grupo mediúnico que consiga eliminar os melindres, gerar afetividade e espírito de cooperação entre seus membros e realizar, ao término de cada sessão, uma análise das manifestações, com sinceridade, mas com muito amor e humildade verdadeira, evitará que seus médiuns se façam portadores de mistificações e de animismo em níveis prejudiciais.

Na verdade, há muitas coisas a serem repensadas, outras a serem mudadas, e outras ainda a serem aprendidas, para que as comunicações entre nós e o mundo espiritual venham a cumprir mais amplamente as suas sublimes finalidades.

 

"Trecho extraído do opúsculo “A mediunidade em época de transição”.

 

 

O MELINDRE   

  

O psiquismo do médium, de modo geral, é mais sensível que das outras pessoas. Isto, porque ele vive numa zona fronteiriça entre a dimensão material e a espiritual e esse contato com o outro lado, em maior ou menor proporção, interfere ou interage com os seus referencias de pessoa encarnada. É alguém que vive e se move no mundo material e ao mesmo tempo sofre a influência do espiritual. Igualmente, a própria mediunidade lhe confere maior sensibilidade. Talvez por isso seja mais suscetível aos melindres, que são extremamente prejudiciais. Portanto, é indispensável, para o seu próprio equilíbrio que desenvolva humildade e paciência, pois certamente encontrará em seu caminho a prepotência, o despeito, a má fé, a má vontade, a calúnia e outras tantas... e não é justo perder sua oportunidade de reajuste e evolução só para “responder à altura”, ou para preservar sua imagem perante os companheiros, porque a imagem que deve preservar acima de tudo é a de si mesmo diante da sua consciência.

Também há de precisar de muito autocontrole e serenidade, além da humildade, quando vir sua mediunidade questionada; quando perceber dúvidas sobre a sua sanidade mental; quando observar que está sendo visto como obsidiado, ou quando lhe chamarem a atenção para erros ou falhas eventuais.

A vaidade e o melindre são seus piores inimigos nesses momentos. É muito difícil alguém ver a sua atuação questionada ou criticada por outrem e não sentir-se revoltado, humilhado ou frustrado.

Nessas circunstâncias também é natural que comece a duvidar da própria mediunidade e essa desconfiança poderá crescer, ganhando visos de realidade a seus olhos e logo estará tão cheio de dúvidas, que fechará inconscientemente seus canais mediúnicos, podendo pôr a perder uma tarefa promissora.

Em qualquer situação, portanto, o médium sábio não deve se exaltar, não se ofender, nunca se melindrar, mesmo que esteja convencido de que as críticas que porventura lhe façam nada têm de verdadeiras.

Quantas vezes estamos certíssimos de algo que nos toca de perto e só mais tarde percebemos nosso erro. Os outros estão bem mais qualificados para nos observarem. Por isso é fundamental que o médium jamais se melindre com quaisquer observações, questionamentos, acusações ou críticas. Em vez disso, que procure analisar, observar e questionar a si mesmo; conversar com algum companheiro que poderá ajudá-lo a encontrar a sua verdade. Em seguida, buscar orientação espiritual. Para isso é necessário limpar o coração de quaisquer mágoas ou ressentimentos, relaxar, elevar o espírito para Deus e pedir, com toda humildade e sinceridade, a ajuda de que está necessitando.

Se a resposta do Alto, assim como seu coração, lhe disserem que está certo, então siga firme e tranqüilo, sem se importar com os espinhos que lhe atirem, mas sempre vigilante para não cair em erro. E se observar erros em si mesmo ou em sua atuação mediúnica, procurar corrigir-se, ou buscar auxílio, se for esse o caso, mesmo porque alguns processos obsessivos são muito sutis, necessitando de ajuda externa para sua solução. Não é vergonhoso um médium procurar ajuda junto a outros companheiros, quando entender necessário. Isto denota maior maturidade de sua parte.

Já o melindre, quando lhe damos acolhida, transforma-se num dos maiores obstáculos em nosso caminho. É incontável o número de medianeiros, com excelentes faculdades, comprometidos com tarefas de maior ou menor monta, que se afastaram por se melindrarem, pondo a perder grandiosas oportunidades de resgate e crescimento.

Vemos então como a humildade é fundamental para o equilíbrio do medianeiro e seu bom desempenho no intercâmbio com o mundo espiritual. Mas isto não significa que deva anular a própria personalidade e deixar-se “humildemente” levar pelos que o querem conduzir. Como canal da outra dimensão para esta, precisa ter maturidade para ver, observar, analisar e agir de acordo com critérios corretos. Mas para isso é preciso conhecer a mediunidade e estudá-la, assim como também a tudo que com ela se relaciona, e esse tudo envolve a doutrina espírita em sua totalidade. Por isso ler Kardec é fundamental.

Muitos têm preguiça de ler, não gostam, ou não conseguem aprofundar-se em estudos mais avançados. Para esses, ou mesmo para os que estão dando os primeiros passos, há literatura mais leve pela qual se pode obter conhecimentos generalizados, embora menos profundos sobre o assunto.

Outro perigo, e dos maiores, está nos elogios que o médium porventura venha a receber em função das suas faculdades ou qualidades. Certamente, são bem mais perigosos que as críticas, por incentivarem e nutrirem a vaidade, podendo colocar seu portador nos primeiros passos para a fascinação, a mais perigosa das obsessões.

Nesse capítulo das vaidades acontece, geralmente, o seguinte: quando pedimos a alguém para não nos elogiar, dizendo que não há fundamento para isso, esse alguém, regra geral, fica ainda mais encantado, afirmando que essa nossa atitude demonstra a grande humildade que já conseguimos desenvolver etc., e a chuva encomiástica continua indefinidamente. Nesses casos, uma saída razoável é a de não responder ao elogio e mudar imediatamente de assunto. Além disso, não guardá-lo no coração, como bagagem meritória que nos foi oferecida. Esse é um lastro enganoso que se avoluma depressa e pode nos fazer cair desastrosamente.

As pessoas estão acostumadas a elogiar, porque instintivamente esperam também receber louvores. Por isso, dificilmente são verdadeiros e quando o são, estão carregados de exageros. Portanto, ouvi-los, aceitá-los como realidade, além de tolice é perigoso.